JOSÉ AUGUSTO HORST
Supervisor de Operações de Campo – PARLPR/APCBRH
MILENA SCHERNER G. SILVA
Acadêmica do Curso de Farmácia e Bioquímica - PUC
INTRODUÇÃO
O leite é composto de proteína, carboidratos,
lipídeos, sais minerais, vitaminas e água sendo um alimento
de excepcional valor nutritivo para o homem e um excelente
meio de cultivo para muitas bactérias. O leite ao ser extraído
do animal sadio já contém alguns microrganismos que penetram
através dos tetos e saem com o leite na ordenha, além disso,
poderá contaminar-se posteriormente durante as operações
que se seguem até o consumo. A quantidade de bactérias, a
significância e o impacto dependerão do tipo de bactéria
e o subseqüente tratamento do leite.
A importância das bactérias no leite varia conforme
o tipo de bactéria, sua ação sobre os componentes do leite,
sua capacidade de permanecerem viáveis e de se multiplicarem,
comprometendo a qualidade do leite e a saúde do consumidor.
A degradação do leite por microrganismos reduz o valor para
industrialização e muda as características dos produtos finais.
TIPOS DE BACTÉRIAS
► BACTÉRIAS PSICROTRÓFICAS -
Bactérias psicrotróficas se multiplicam em baixas temperaturas,
abaixo de 7ºC, embora a temperatura ótima de crescimento
se situe entre 20 e 30ºC. Os principais gêneros de bactérias
psicrotróficas encontrados no leite são a Achromobacter,
Acinetobacter, Alcaligenes, Flavobacterium e Pseudomonas
(Gram-negativos) e Bacillus e Clostridium (Gram-positivos).
Essas bactérias são eliminadas pela pasteurização, mas
algumas enzimas produzidas pelas bactérias Gram-negativas
e os esporos, produzidos pelas Gram-positivas, são termo-resistentes
provocando reações bioquímicas nos constituintes do leite
resultando em alterações das características normais do
produto. Os dois grupos de enzimas mais importantes produzidos
pelas bactérias psicrotróficas são a protease e a lípase.
Elas podem atuar no leite cru, enquanto estocado, as bactérias
psicrotróficas estão se multiplicando, e, também, no leite
que foi pasteurizado e nos derivados lácteos, causando
alterações físicas e sabores indesejáveis ao leite. Essas
bactérias são normalmente encontradas na água e em vasilhames
que não foram lavados adequadamente.
► BACTÉRIAS MESÓFILAS - As bactérias
mesófilas constituem um grupo capaz de se multiplicar entre
10ºC e 45ºC, sendo a temperatura ideal em torno de 30ºC.
Esse grupo é importante porque inclui a maioria dos contaminantes
do leite, podendo atingir altas contagens quando o leite
é mantido à temperatura ambiente.
► BACTÉRIAS TERMÓFILAS - Bactérias termófilas
são encontradas normalmente em pequeno número, mas em determinadas
situações podem atingir grandes populações. Elas se multiplicam
entre 20ºC e 37ºC e são capazes de se multiplicar mesmo em
temperaturas acima de 50ºC. Os principais representantes
são os gêneros Bacillus e Clostridium, encontrados em silagens,
no solo e no esterco.
► BACTÉRIAS TERMO-RESISTENTES - Na indústria
láctea considera como bactérias termo-resistentes aquelas
que sobrevivem à pasteurização em número suficiente, mas
não crescem à temperatura em que se realiza este processo.
Estes microrganismos trazem dificuldades, pois, não morrendo
pelo processo de pasteurização contamina os utensílios e
caso não haja uma limpeza eficiente destes vasilhames, o
leite que passar por eles novamente contamina-se. As bactérias
termo-resistentes não pertencem a determinada espécies ou
gênero, mas a diferentes espécies de diferentes gêneros.
Exemplos: Gênero Microbacterium
Fontes de contaminação do leite:
► INFECÇÕES INTRAMAMÁRIAS –
está é uma grande fonte de contaminação bacteriana para o
leite, principalmente quando se encontra em um estágio avançado
de desenvolvimento. São consideradas comuns contagens de
até 1.000 UFC/ml, em infecções subclínicas encontram-se contagens
entre 1.000 e 10.000 UFC/ml e em estágios clínicos podem
atingir 1.000.000 UFC/ml para agentes como Staphylococcus
aureus e 100.000.000 UFC/ml em
infecções por Streptococcus uberis ou Escherichia coli.
► SUPERFÍCIE DO TETO DO ANIMAL – variam conforme
as condições de alojamentos das vacas, podendo apresentar grande quantidade
de bactérias. Mesmo tetos visualmente limpos podem carregar contaminação
bacteriana.
► EQUIPAMENTOS, acessórios e utensílios de ordenha –
Estes constituem um foco muito importante da contaminação
do leite, desde o equipamento de ordenha até o vasilhame/utensílio
utilizado após a pasteurização. Se todos os instrumentos
e acessórios não estiverem perfeitamente limpos e não tenham
sido higienizados com produtos que possuam agentes bactericidas,
os resíduos do leite que ficaram aderidos pelo uso anterior,
constitui um meio favorável para a proliferação dos microrganismos.
Muitas vezes a alta contagem de microrganismos do leite denunciam
a utilização de utensílios e acessórios deficientemente limpos.
Sempre que houver um problema de alta contagem de bactérias
totais um dos primeiros itens a ser avaliado é o programa
de limpeza e desinfecção do sistema de ordenha e o tanque
resfriador de leite. A modernização dos equipamentos de ordenha,
com design mais adequado e os significativos aprimoramentos
nos materiais e métodos de limpeza contribuem para a redução
no risco de contaminação.
► SISTEMA DE RESFRIAMENTO – um sistema
de resfriamento inadequado contribui para a proliferação
de bactérias. A higienização correta do tanque de resfriamento
também é de grande importância para evitar a contaminação
por microrganismos. O leite deverá ser resfriado imediatamente
e estocado a uma temperatura abaixo de 4°C, prevenindo-se
deste modo o crescimento bacteriano. Estes efeitos variam
com a quantidade inicial de bactérias, a velocidade e eficiência
do processo de resfriamento, com a redução do tempo de estocagem
e com o controle do leite resfriado.
► CONTAMINAÇÃO PELO MEIO AMBIENTE – devido ao acúmulo
de sujeira, ambientes sem higiene adequada, também propiciam um aumento da população
microbiana contribuindo para a contaminação do leite.
► MANIPULADORES E ORDENHADORES – pessoas designadas
para ordenha e manipulação do leite podem ser uma fonte de contaminação do leite,
devendo ser passar por treinamentos adequados. (como exemplo o homem pode ser
a fonte de infecção causada por Staphilococcus aureus)
► ÁGUA - a água utilizada tanto para a limpeza dos
tetos quanto para a limpeza do sistema de ordenha deve ser de boa qualidade
e sem presença de contaminantes, como coliformes. A presença de bactérias
na água pode comprometer a qualidade do leite, gerando uma alta contagem
de bactérias, sendo importante uma analise microbiológica da água.
Sua presença no leite é relacionada à falta de higiene e pouca ventilação nos
estábulos.
Veja abaixo a tabela:
Fonte:
Faria, 1998
Formas de Controle do Conteúdo Bacteriano do Leite
· Controle da mastite nos rebanhos;
· Higiene adequada (tetos do animal, acessórios e utensílios
de ordenha, manipuladores e ordenhadores, tanque de resfriamento,
local, etc)
· Qualidade da água usada para higienização do animal;
· Sistema de resfriamento adequado do leite;
· Evitar armazenamento prolongado do leite, efetuando pasteurização
o mais breve possível;
· Aplicação dos Princípios de Análise de Perigos e Pontos Críticos
(APPCC)
Ressaltamos a real necessidade de avaliar e criar procedimentos
que evitem altas contagens bacterianas, uma vez que a partir
de julho de 2005, entrará em vigor a Instrução Normativa no 51,
sendo que o leite cru refrigerado terá um limite de 1,0 x 106
UFC/ml.
O Programa de Analise de Rebanhos Leiteiros do Paraná – Convenio
APCBRH/UFPR integra a Rede Brasileira de Laboratórios Centralizados
de Qualidade do Leite (RBQL), programa criado pelo Ministério
da Agricultura, Pecuária e Abastecimento para garantir a qualidade
do leite do país, sendo este um dos sete laboratórios credenciados
para avaliar a qualidade de todo o leite produzido no Brasil.
A RBQL inclui mais seis laboratórios que estão distribuídos pelo
Brasil, sendo um no Rio Grande do Sul, um em S ao Paulo, dois
em Minas Gerais, um em Goiás e outro em Pernambuco, sendo estes
os Laboratórios responsáveis pelas analises de contagem bacteriana,
contagem de células somáticas além dos componentes (% de gordura,
proteína, lactose e sólidos) conforme a IN 51.
Assim, é importante a conscientização dos produtores, técnicos
e industriais sobre os cuidados a serem tomados para que se obtenha
um leite com baixa contagem bacteriana e dessa forma obter-se
um produto com qualidade, onde ganhará o produtor que valorizará
seu produto e o consumidor que estará utilizando um produto de
qualidade. |